sexta-feira, 29 de julho de 2016

25 momentos que me marcaram em Buffy The Vampire Slayer e Angel




       Lembro de ter assistido muitos episódios de Buffy The Vampire Slayer e Angel quando ambas séries passavam na TV aberta. Lembro de assistir sem compromisso, apenas para ver as imagens, aproveitar aquele mundo fantástico cheio de monstros, vampiros, demônios, sem entender absolutamente nada do que diabos estava acontecendo e que dirá criar laços emocionais com os personagens (desculpa, eu era criança ok?). Mas há pouco tempo atrás, me comprometi a assistir essas séries direitinho, certinho, bonitinho. E que séries incríveis não migas?!
       Criadas por Joss Whedon, famoso também no universo cinematográfico e dos quadrinhos, BTVS e seu spin off, Angel, fizeram grande sucesso, conquistando uma legião de fãs, influenciando e revolucionando o mundo das séries, e deixando um grande marco na cultura pop (BTVS principalmente).
       Bom, pra quem já assistiu, pode continuar aqui se quiser me acompanhar na lista que fiz dos momentos mais marcantes >>>> PARA MIM <<<< desse universo, ver se algum desses momentos batem com os momentos mais marcantes de vocês, e, para quem ainda não assistiu, ou assistiu somente uma das duas séries, melhor parar por aqui porque há muitos spoilers pela frente! Mas se você é uma pessoa que não se importa com spoilers e quiser continuar mesmo assim, sinta-se à vontade!
       Aviso que a lista seguirá segundo meus sentimentos, independente de ter acontecido em uma série ou outra, então, dito isso: preparados para muitas lágrimas, dor e sofrimento? Então vamos lá!



25 - Natureza do mal





       Em Angel S5xE11, Damage, vemos um pouco das consequências da decisão de Buffy em dar poder real de caçadora para todas as potenciais caçadoras ao redor do mundo. Em uma das cenas finais, Spike, em uma conversa com Angel, diz que nunca havia parado para pensar na natureza do mal, muito menos nas vítimas quando estava no meio do mayhem em sua época de vampiro desalmado, já que para ele, elas eram apenas consequências, e Angel retruca dizendo que, para ele (ou Angelus), era exatamente o contrário, pois tudo era sobre as vítimas; a destruição da vida humana era seu maior prazer.
       Esta cena foi marcante para mim não apenas porque me fez pensar sobre a natureza do mal, assim como Spike, mas porque me foi possível refletir sobre a natureza do mal dentro de ambos os vampiros. Quando sem alma, os dois eram ruins, porém cada um a seu modo. Spike com seu mal imprudente, fervoroso e despreocupado e Angelus com seu mal metódico, frio e psicótico. Se é que há como medir o mal, qual deles era pior? O que me levou a questionar a natureza dos vampiros como grupo no universo "Whedonístico" também. Em suma, esta cena mexe comigo, tanto por sua força quanto pelas questões filosóficas que levantou dentro de mim, envolvendo o mundo em que vivo e o mundo criado por Whedon.


24 - Cordelia chora no hospital por causa de Xander





       Eu amo Cordelia Chase. E meu amor se perpetuou depois dessa cena heartbreaking, com ela chorando no hospital por causa de seu coração partido (não por causa do acidente horrível que ela sofreu após descobrir a traição do namorado) depois que Xander vai embora ao perceber que ela não queria falar com ele. A bitch, afinal, tem um coração.


23 - A morte de Doyle




       Okay, a cena triste vem depois da morte dele na verdade, quando Angel e Cordy assistem ao vídeo que Cordy o obrigou a gravar para o merchan da Angel Investigations. Aquele momento foi quando bateu a bad, fazendo eu me dar conta de que ele realmente se foi.


22 - Mas VOCÊ fez de mim um monstro





       Em Angel S5xE08, Destiny, episódio focado em Spike, toda a briga final entre os vampiros com alma é forte, tensa, intensa e marcante, mas o momento que mais permanece em minha mente é quando Spike diz para Angel que ele, Angel, foi o responsável por fazer dele, Spike, um monstro. Independente de eu concordar 100% ou não com a afirmação do vampiro, foi algo que me causou grande impacto.


21 - Você me amaldiçoou





       Quando Darla diz a Angel que ela o salvou se referindo ao momento em que ela o transformou em vampiro, ao que ele retruca dizendo que ela, na verdade, o amaldiçoou, em Angel S2xE07, Darla, é uma cena que me marcou bastante também (vale aqui uma menção honrosa a outra cena entre Angel e Darla, quando ele diz à ela que ela sabia como deixá-lo louco, mas nunca o havia feito feliz *ouch, essa deve ter doído*). Dessa vez, eu não só concordei 100% com a afirmação, como eu mesma havia dito a mesma coisa antes mesmo do próprio Angel dizer. É Darla minha querida, ser vampiro no mundo do Joss não é uma benção não fofa, se liga!


20 - Am I a thing worth saving?






       Em Buffy S3xE10, Amends, o episódio de Natal focado em Angel, temos aquela cena no topo da colina entre Buffy e o vampiro, que está tentando cometer suicídio esperando o sol nascer. A conversa entre os dois, principalmente o momento do gif aí de cima, me corta o coração, sempre.


19 - Morte da Anya





       Como não ficar mals depois que a ex-demônia misândrica da vingança mais querida e amada morre daquele jeito tão brutal e estúpido? E o quanto dói ver o Xander chamando o nome dela em vão enquanto a escola desmorona e a câmera foca no rosto sem vida dela? Vou te falar, em mim, pelo menos, dói bastante...


18 - Você foi extraordinária





       Não são muitas as vezes em que posso dizer que me identifiquei com Dawn, mas no episódio Potential, Buffy S7xE12, foi uma dessas raras vezes. E o discurso de Xander para ela no final, dizendo que ela havia sido extraordinária, claro que me levou às lágrimas.


17 - I will remember you





       Angel S1xE08, I will remember you. Acho que para Bangel shippers, só isso já é o suficiente, não preciso ficar detalhando cena por cena, o episódio inteiro já diz tudo. Okay, okay, vou dar destaque para uma das cenas finais então, aquela em que eles conversam e se abraçam antes do tempo deles juntos acabar. *Snif*


16 - Oz vai embora





       Oh man, se eu não fico triste quando o Oz vai embora... Aquele episódio inteiro é bem triste e doloroso (Buffy S4xE06, Wild at Heart), mas vou dar destaque para a cena onde a Willow fala para o Oz, em lágrimas, "Don't you love me?". Anyway... Se já está difícil escolher apenas uma cena agora, já vou avisando que daqui para frente vai ser mais difícil ainda, just saying.


15 - Innocence





       Innocence, Buffy S2xE14, o episódio focado no maior plot twist de toda a série. Quem assistiu, sabe do que estou falando. Destaque para a cena mais do que heartbreaking do primeiro contato entre Buffy e Angelus, onde ele age feito o namorado filho da p*ta e babaca, partindo o coração da nossa caçadora. Menção honrosa para a cena de Buffy chorando em seu quarto se encolhendo em posição fetal segurando o anel que Angel havia dado a ela *the tears...*


14 - Just kill me, I'm bad





       Ah, Faith... Faith Faith Faith... Angel S1xE18, Five by Five. Cena do gif acima, quando Faith pede para Angel matá-la porque ela é má. Wesley se aproxima, há apenas o som da chuva e do pedido desesperado de ajuda de uma mulher perdida. Wesley deixa a faca cair de sua mão, indicando que a violência chegou ao fim.


13 - You're all fired





              Quando Angel demite todo o seu time no final do episódio ReunionAngel S2xE10, é... Desesperador. Pra dizer o mínimo. Pelo menos para mim foi, afinal, já sabia o que aquilo significava (e quem não?). Mas foi um passo muito importante e necessário para a série e para o personagem Angel também, então fico satisfeita que tenha acontecido. Menção honrosa para Angel indo embora da reunião de advogados da Wolfram & Hart, deixando Darla e Dru livres para matar "todo mundo"... Dark times...
     


12 - Angel vai embora de Sunnydale





       Cena linda. Dolorosa e linda. Do jeito que eu gosto. Acho que é só isso mesmo, não tem muito o que falar, a cena, os olhares, já diz tudo.
       Próximo!


11 - Se eu parar de fazer todas essas coisas, eu vou perceber que ela se foi





       
              No episódio ForeverBuffy S5xE17, depois do devastador The Body (calma que a hora dele ainda vai chegar) onde a mãe da Buffy morre, Buffy e Dawn tem uma conversa intensa e dolorosíssima, onde ambas se abrem uma para a outra e permitem se consolar pela perda da mãe. Triste, doloroso e heartbreaking.


10 - Puppet Angel





       Nem tudo tem que ser só dor e sofrimento não é mesmo? E como humor é o que não falta no Buffyverso, eu precisava incluir algo marcante para mim do gênero no meu top 10.
       Eu sei que temos vários e vários episódios divertidíssimos em ambas as séries (menções honrosas a Buffy S3xE13, The Zeppo, e S3xE16, Doppelgangland), mas nenhum me fez rir tanto quanto eu ri no episódio Smile Time (Angel S5xE14). Eu simplesmente não consigo dizer de qual cena eu ri mais, já que eu não conseguia parar de rir. Se foi na briga entre puppet Angel e Spike, se foi na cena do gif, se foi na cena em que Fred, Gun e Wesley vê o Angel puppet pela primeira vez, se foi na cena da luta final, quando vemos a versão vampiresca do puppet Angel, se foi na cena que a lobisomem Nina, paquera do Angel, o ataca, enfim... Bom, sendo assim, destaco todas essas cenas que eu citei; porém, sério, o episódio inteiro seria merecedor dessa décima colocação, com todas as suas cenas incluídas. É muito bom, muito engraçado, muito divertido, além de dizer muita coisa sobre o personagem Angel também, uma vez que ele (o episódio) não foi posto ali apenas por puro alívio cômico. Sendo assim, voltemos às lágrimas, dor e sofrimento porque sou gótica, então bora pro próximo!


9 - The Gift





       Voltando à depressão com estilo, temos Buffy S5xE22, The Gift. A morte de nossa amada protagonista Buffy Summers. A cena do gif acima, quando ela se sacrifica para salvar o mundo e a irmã, o que ela diz para a Dawn... É a Buffy sendo a heroína maravilhosa que ela é. Obrigada Buffy, nós te amamos, eu te amo, quando crescer quero ser você (com exceção de que quando eu morrer, quero permanecer morta mesmo, muito obrigada).


8 - Class Protector





       Nem todas as lágrimas têm que ser de dor e sofrimento também né? De alegria, com calorzinho no coração também vale. Sendo assim, quando Buffy ganhou o prêmio de Protetora da escola no baile de formatura, sendo finalmente reconhecida por seu perigoso e difícil trabalho de caçadora, não teve como não me emocionar. Beautiful!


7 - Passion





       O que dizer deste episódio? (Buffy S2xE17, Passion)
       Só que... Dói. Dói demais, dói bastante, dói pra karario, nada mais.
       Destaque para o assassinato de Jenny (lembro que até dei um grito abafado na hora, daqueles que "sai para dentro" sabe?), Giles encontrando ela morta no quarto, e para o momento pai X filha de Giles e Buffy do gif acima (quando a Buffy diz, ainda abraçada em Giles, "I can't do this alone", oh mAAAAAN... *segura as lágrimas*)
       Vamos pro próximo logo! Ugh!


6 - I love you Willow


  

     
       Xander diz "I love you Willow", eu digo "I love you Willow", o mundo diz "we love you Willow", Willow volta a ser ruiva, e eu choro. Mas na real, esse momento do gif (da finale da sexta temporada btw)... Nossa... O que o Xander diz para a Willow, esse momento do abraço onde a Willow põe para fora toda a dor da perda, é... *tears*
       Menção honrosa para a morte da Tara, que não coloquei na lista porque considerei como parte do arco da Dark Willow, que foi o foco de todo o meu sofrimento na sexta temporada.O que dizer deste momento? (Referindo-me ao momento do gif aí de cima)


5 - You're welcome





       E chegamos no meu top 5 momentos mais marcantes de BTVS e Angel. Preparados para as lágrimas? Porque daqui pra frente, é só lágrimas! E de dor e sofrimento, nada de lágrimas de alegria não!
       Começando pelo episódio You're welcome, de Angel - S5xE12, que eu chorei quase que do começo ao fim. Nossa Cordy, a Cordy que amamos, volta para colocar o senhor depressivo-queria-estar-morta nos trilhos novamente. Só pelo fato de ser a Cordelia que eu tanto amo ali (depois da sacanagem que fizeram com ela na quarta temporada), eu já sofro, fora que eu percebi o quanto ela fazia falta, o quanto eu senti saudades dela. E no final, eu tive que dizer adeus a ela, de vez.
       Adeus Cordy, minha bitch favorita. *cleaning the tears*


4 - Lie to me





       Wesley Wyndam-Price, quem que te viu em Buffy diria que você se tornaria o que se tornou em Angel hã?
       Com uma das mais incríveis evoluções de personagem de todo Buffyverso, Wesley me tirou lágrimas doloridas com sua comovente morte em Angel S5xE22, Not Fade Away, pedindo para que Illyria mentisse para ele em seus últimos momentos de vida, "imitando" sua amada Fred. *hold the tears hold the tears*
      Quarto lugar para a morte de Wesley.


3 - Close your eyes





       Pela segunda vez, Angel é condenado a morte pelas mesmas palavras (Darla, antes de transformá-lo, diz o mesmo que Buffy antes de matá-lo, "close your eyes").
       Em Becoming Part 2, Buffy S2xE22, Buffy tem que matar, não o demônio que ameaçava destruir o mundo, mas o homem que amava. Tudo teria sido mais fácil se o feitiço para devolver a alma de Angel não tivesse funcionado, ou se Xander não tivesse mentido para Buffy, tirando uma boa opção para resolver o problema das mãos da caçadora, tudo por causa de seu ciúmes vampirofóbico.
       Sei que muitos incluiriam essa cena, talvez, apenas por conta de Buffy, já que "não se importam com o Angel" blá blá etc. etc., e eu entendo perfeitamente, não vejo problema nisso e também não vejo problema nenhum em não gostar ou não se importar com o Angel (coisa que eu entendo também), mas não é o meu caso. Pelo menos não 100%. Vou me explicar: eu me apaixonei pelo Angel em BTVS junto com a Buffy, além do que, matá-lo foi um trauma e uma dor muito grande para ela (e para mim também), algo do qual ela teria que carregar pelo resto de sua vida, e o peso disso fez com que eu sofresse bastante, independente de eu já saber sobre o eventual retorno de Angel, então, eu posso dizer sim que, até certo ponto, esta cena está incluída por causa da Buffy; porém, ela não estaria em uma posição tão alta no meu ranking se eu não me importasse com o Angel, com quem, obviamente, a esta altura da lista, já deu para perceber, eu me importo bastante (hello, eu me APAIXONEI pelo Angel junto com a Buffy... Acho que isso já demonstra que eu me importava com ele desde de BTVS né).
       Então, resumindo, para finalizar, essa cena maravilhosa de trágica de triste está no meu terceiro lugar porque eu amo Buffy Summers, amo Angel, sabia que isso seria um trauma eterno para Buffy e... Aquela trilha sonora ganhadora de Emmy também é tudo de bom, o que seria de um casal vivendo um amor proibido sem um tema musical decente e marcante não é mesmo? Obrigada Christopher Beck.
       Agora respira e inspira, se preparem, porque a medalha de prata e de ouro está... Vocês verão.


2 - The Body (Buffy S5xE16)





       Alguns de vocês devem ter pensado que este estaria em primeiro, não é mesmo? Aposto! Mas não, medalha de prata para este episódio que é pura arte e puro sofrimento juntos. Não tenho muito o que dizer além de "só esse episódio vale toda a jornada, obrigada", então, partirei logo para os destaques, que é a cena entre Tara e Willow (do gif acima), onde finalmente a série mostra um beijo do casal lésbico, e para o desabafo de Anya (gif abaixo)... É muito sofrimento para um episódio só minha gente, então partiu para o próximo.




1 - Illyria





       O primeiro lugar não vai para um episódio apenas, mas para um arco inteiro de história e personagens que eu resumo em Wesley x Fred x Illyria, ou somente em Illyria; quem assistiu já vai saber do que estou falando só em citar esse nome.
       Desde o episódio A Hole in the World, Angel S5xE15 (depois do episódio mais divertido ever, Smile Time, vem uma facada no coração; não dá para ficar feliz por muito tempo no mundo "Whedonístico", já deu para perceber né), até o final da última e melhor temporada de Angel, Illyria foi responsável pelo meu maior e mais doloroso sofrimento de todo o Buffyverso. Destaque para o momento da morte de Fred.
       Nem sofri... Nem sofro... Nem sofro até hoje...
       ... Nunca vou superar.





       Então é isso aí pessoas, espero que tenham gostado e relembrado os momentos, revisitando essas duas séries maravilhosas.
       E antes de ir, deixarei uma menção honrosas aqui: a cena em que Buffy diz a Giles que não queria morrer ("I'm sixteen years old. I... I don't wanna die") em Prophecy Girl, finale da primeira temporada. Sintam-se à vontade para comentar os seus feelings também, se quiserem.
       E até a próxima!

       o/

P.S.: Atualizei mudando algumas posições, mais especificamente, a 6, 7 e 11. Achei que o episódio Passion merecia uma posição mais alta no ranking.

  
       

sábado, 16 de abril de 2016

Resenha Lady Midnight - Dama da meia-noite - de Cassandra Clare (sem spoilers)

Personagens de The Dark Artifices



            Já resenhei aqui a saga e trilogia Os Instrumentos Mortais (The Mortal Instruments) e As Peças Infernais (The Infernal Devices), respectivamente, ambientadas no mundo fantástico de Shadowhunters, criado por Cassandra Clare. Recomendo a leitura daquela resenha antes dessa, principalmente se você ainda não leu nenhuma daquelas obras anteriores. Hoje, volto com a resenha do primeiro livro da mais nova trilogia, The Dark Artifices (Os Artifícios das Trevas), ambientada nesse mesmo universo.
Lady Midnight (Dama da meia-noite), é um livro YA de fantasia (como todos os outros livros da saga e trilogia anteriores) e nos apresenta essa nova aventura do mundo dos Caçadores de Sombras de modo excepcional, sendo, em minha opinião, um dos melhores livros (talvez, quiçá, O melhor) desse universo criado por Clare.
Assim como acontece com a saga e trilogia anteriores, não há problema algum em ler este livro sem ter lido qualquer outra obra sobre os Shadowhunters, mas eu recomendo imensamente a leitura de todos os outros livros, pois dará mais profundidade à sua leitura, além de que, se você não gosta de spoilers e de repente, resolve lê-lo mesmo assim, ficando interessadx em ler as obras anteriores, tenha em mente que haverá muitos spoilers daquelas histórias por aqui; as outras vantagens é que você entenderá melhor aquele universo, ficando mais familiarizadx com ele, sendo capaz de captar as referências e, talvez, até mesmo de “fangirlizar” ou “fanboylizar” com as aparições especiais dos personagens dos livros anteriores. Muitos recomendam também, para aqueles que já leram todos os outros livros da saga e trilogia anteriores, a leitura de Tales from the Shadowhunter Academy (Contos da Academia dos Caçadores de Sombras*, creio que não há versões em português por enquanto e, infelizmente, ainda não li) antes dessa leitura.
Ambientado em Los Angeles no ano de 2012, a história de Lady Midnight se passa cinco anos após os acontecimentos de City of Heavenly Fire (Cidade do Fogo Celestial, último livro da saga Os Instrumentos Mortais), acompanhando a trajetória das personagens já introduzidas naquele livro: Emma Carstairs e a família Blackthorn, onde o melhor amigo de Emma, Julian Blackthorn, se inclui, além de trazer personagens novos para quem já é familiarizado com o universo.

Da direita para esquerda: Emma Carstairs, Tavvy, Julian, Ty e Livvy Blackthorn em City of heavenly fire


Retomando o enredo, cinco anos se passaram desde a Dark War (Guerra Sombria*, acontecida em City of Heavenly Fire) e Emma Carstairs procura saber a verdade sobre as mortes de seus pais, pois tem a certeza de que eles não foram vítimas dela, como a Clave (o governo dos Caçadores de Sombra) quer que ela acredite. Sendo assim, desde então, Emma passa a investigar a morte dos pais em segredo, sem a autorização da Clave, e depois de longos cinco anos, ela finalmente consegue uma pista animadora da qual possa levá-la à verdade, para finalmente, conseguir sua vingança, e é aí que a história começa.
É visível a evolução de Clare como escritora. Sua escrita está mais sólida, envolvente, dinâmica; ela evoluiu em praticamente todos os aspectos. Este, com certeza, está entre meus livros favoritos dela (se não for O meu favorito, ainda não me decidi). O narrador é onisciente, como nos livros anteriores, revezando entre o ponto de vista de cada personagem (na maior parte do tempo o foco é em Emma e Julian, porém Mark Blackthorn e Cristina Rosales também ganham um espaço importante na narrativa). O enredo é interessante, bem amarrado, apresenta uma pegada noir que instiga, mantendo o interesse do leitor no andamento da investigação que conduz a história. Há algumas coisas que acabam não funcionando muito bem, como um dos segredos envolvendo Julian e seu tio, Arthur, pois acaba soando estranho que Emma não tenha juntado as peças antes do leitor. Os pontos fortes da narrativa do enredo são, sem dúvida, suas reviravoltas, os famosos plot twists (ponto onde a autora sempre foi boa, mas aqui, parece estar melhor do que nunca), que pegam o leitor de surpresa, deixando-o quase sem reação (ou sem ar e de queixo caído). Outro ponto que merece destaque, onde também é possível ver a evolução da escritora, é que os clichês de YA diminuíram consideravelmente, deixando a narrativa menos previsível e familiar.

Emma Carstairs
A ambientação aqui é tropical e moderna, menos urbana e mais praiana, contendo várias cenas em praia e lugares ao ar livre, na natureza. O instituto é mais moderno, contendo várias paredes de vidro e janelas com vistas para praia e deserto, além de, finalmente, vermos Caçadores de Sombras usando mais tecnologia humana, como computadores, celulares e fones de ouvido, além de terem mais relação com a cultura pop, chegando a citar desde Star Wars a Vingadores, onde os créditos para tal conhecimento eles dão à cidade onde vivem, berço de Hollywood, o coração da sétima arte.
A mitologia continua rica e o universo é expandido, o Submundo é mais explorado, principalmente no contexto das fadas, trazendo-nos vários elementos novos e interessantes.   

Julian Blackthorn
Falemos agora dos personagens e a relação entre eles, que são as melhores coisas do livro. Aqui, Clare se supera na construção dos personagens e seus relacionamentos. Esses personagens não são apenas ótimos e carismáticos, mas são complexos, profundos, sendo possível entender cada passo deles e suas motivações; eles são incríveis porque são os mais humanos possíveis (por mais estranho que isso possa soar), sendo palpáveis, o leitor sente fácil identificação e/ou empatia por eles.  Emma não é apenas a “protagonista forte”, ela é mais: é uma excelente guerreira porque se aplica bastante, treinando muito para tal; é determinada, dedicada, engraçada, sarcástica, amorosa, companheira, corajosa, porém um pouco imprudente, tem seus medos e inseguranças, além de um grande coração, ou seja: é uma pessoa completa, com todas suas nuances, contradições, qualidades, defeitos e paradigmas. O mesmo vale para Julian, personagem que me surpreendeu, pois ao contrário de Emma, a qual eu já esperava ser uma personagem incrível ao ler City of heavenly fire, admito que dele não esperava muito. E ele é tão complexo quanto ela. Teve que amadurecer antes da hora para cuidar de seus irmãos devido à perda dos pais e a ausência forçada de seus irmãos mais velhos, carregando responsabilidades indesejadas, tornando-se mais um pai do que um irmão para eles. Tem seu lado doce, calmo, artístico, carinhoso e divertido, porém apresenta uma nuance quase assustadora quanto ao seu lado protetor, onde o leitor chega a se assustar e até temer àquilo que ele é capaz de fazer e possa ser capaz de fazer no futuro, para proteger quem ele ama. Mas mesmo assim, o amor de Julian para com seus irmãos e à própria Emma, seu instinto de proteção e cuidado, que parece saltar das páginas, inebriando o leitor, faz com que a tarefa de não soltar algumas lágrimas em certas cenas seja praticamente impossível.

Cristina Rosales
Quanto ao resto dos irmãos Blackthorn e outros personagens coadjuvantes, eles conseguem ser tão incríveis e carismáticos quanto os protagonistas, tendo suas personalidades e nuances destacadas, onde nenhum fica “sobrando” na narrativa, pois todos têm seu momento de destaque. Senti-me apegada a todos eles de um modo que me lembrou o meu apego aos personagens da animação Avatar: a lenda de Aang, o que considero uma coisa rara de acontecer.
Mark Blackthorn
Agora, passando para a relação entre eles: a amizade, a união, o romance, o companheirismo, tudo está aqui, descrito e mostrado da melhor forma possível. Desde The Clockwork Princess (Princesa Mecânica), Clare vem provando o quanto sua narrativa evoluiu neste quesito. A evolução do relacionamento de Julian e Emma, passando da amizade para o romance, é construída delicadamente, de forma cuidadosa e excepcional, sendo impossível não torcer pelo casal. A dinâmica da família Blackthorn é ótima, leve e divertida, onde a união e o amor são palpáveis, mesmo nas situações mais difíceis e delicadas. Algo que me saltou aos olhos enquanto lia foi a amizade entre mulheres (ou a famosa sororidade, como chamamos no feminismo) estabelecida logo no começo do livro, entre Emma e Cristina, algo que faltou nos livros anteriores de Shadowhunters, apesar de compreensível a sua falta naqueles contextos, uma vez que sua construção posterior acaba fazendo parte do processo de evolução das personagens. Enfim, a amizade entre elas não poderia ser mais bonita: Cristina é uma garota gentil, fiel e companheira, que em mais de uma vez, se mostra o elemento racional das situações, e Emma sempre encontra nela a balança necessária, a calma, conselhos e um porto seguro quando ninguém mais, nem mesmo Julian, é capaz de suprir. Mas nem tudo são rosas, e alguns relacionamentos são complicados e difíceis, deixando o leitor angustiado e inseguro durante a leitura, contudo, isso apenas enriquece a experiência e a narrativa.
O humor, como sempre muito presente nos livros de Clare, também não falha aqui, aparecendo nos momentos oportunos, sendo bem construído, mantendo seu tom sarcástico, nerd e pop, sendo encaixado com maestria nos diálogos.
Novamente, agradeço Cassandra Clare pelo trabalho de representatividade nesta obra. Algo que, inclusive, ela aumentou consideravelmente com esta nova empreitada. Agora, além de personagens de diferentes etnias e orientações sexuais, temos personagens com doenças mentais. Ela continua a abordar o despreparo da Clave para lidar com e aceitar o diferente (qualquer semelhança com nossa sociedade é mera coincidência) aprofundando mais a discussão, direcionando-a para outros territórios. Apesar de os protagonistas ainda não fugirem do padrão branco-heterossexuais (de repente em um dos futuros livros, quem sabe), ainda é um esforço válido e eficiente, e algo para se comemorar, uma vez que a obra é best-seller, direcionada ao público jovem e adolescente.
Por fim, Lady Midnight é uma obra divertida e emocionante, de leitura fácil e rápida (mesmo o livro contendo mais de 600 páginas), que aborda assuntos como família, amizade, amor e companheirismo, além de temas importantes e pertinentes à nossa sociedade, trazendo à tona discussões interessantes e necessárias. Apresenta um tom balanceado entre aventura, mistério, amizade, romance, drama e comédia, que emerge e prende o leitor rapidamente na história e naquele mundo. Enfim, recomendo a leitura, principalmente para os fãs do gênero. Garanto que Lady Midnight e o universo Shadowhunters não irão te decepcionar.


Nota: Li esse livro em inglês, por isso muitos dos títulos, termos e nomes aparecem nessa língua sem estar entre parênteses. Espero que isso não seja um problema. E todas as artes foram feitas por Cassandra Jean.


*tradução livre feita por mim 

sexta-feira, 25 de março de 2016

A fugitiva

            Fugiu. Fugiu, não sei para onde foi. Ou se escondeu, deve estar perdida. Com certeza está perdida, aqui, em algum lugar da minha mente. Deve estar vagando, lenta, por entre os pilares cinzentos de meu cérebro. A memória busca, mas esbarra em sinônimos, frases que lhe explicam o significado, como seguranças ou guarda-costas que evitam minha passagem até ela. E ela, a palavra, continua vagando, perdida, foragida dentro de minha mente.
            Como encontrá-la? Preciso encontrá-la, pois do contrário, minha frase, meu texto, minha dialética, minha fala, minha ambição de fazê-los compreender estará perdida para sempre, incompleta, com significados faltando, pois só os encontramos dentro daquela palavra. Meu mundo se resume a ela agora, aquele conjunto de fonemas, sons articulados, representados por um conjunto de letras. Busco-a incessantemente, desesperada, cavando, forçando meu raciocínio, porque sem ela estarei perdida; na verdade, já estou. Fico confusa, uso os sinônimos e as frases explicativas de seu significado, que de guarda-costas passaram a me servir de substitutas, a fim de amparar seu súbito desaparecimento. O que não é o suficiente, preciso encontrá-la, e rápido!

            O tempo está acabando, estão todos esperando, alguns me encarando com expectativa, outros com impaciência. Olho para as paredes, para os cantos, para os expectadores, com a esperança de encontrá-la repentinamente em algum desses lugares ou no olhar de outros. Alguns, de boa intenção, tentam me ajudar, soprando outras palavras para mim com a esperança dela ser a fugitiva a qual procuro, pois a situação já está constrangedora. Olho para o teto, respiro fundo e tento me concentrar. É minha última chance e não terei outra, se não a encontro agora, minha mensagem estará perdida para sempre, destinada ao limbo das ideias. 

            Vasculho em questão de segundos, passando pelas substitutas, obrigando-as a levar-me até ela, a palavra fugitiva. Após mostrar-me o caminho, as substitutas, então, aproveitam para descansar por um tempo; elas sabem das chances que têm de tornarem-se fugitivas um dia.

E então, finalmente, eu a encontro. Escondida, cautelosa, porém implorando para ser falada, escrita, com sede de ser exposta ao mundo. Ela sabe o poder que tem de mudá-lo, de moldá-lo, já que muitos creem nela. Ou fugiu, por medo e insegurança, ou perdeu-se, por descuido e imprudência, não sei bem. Sei apenas que o alívio de encontrá-la em minhas confusas e desorganizadas ideias é uma sensação reconfortante. E assim, aliviada, consigo prosseguir com meu raciocínio tranquilamente, expondo-o a todos, mas com a certeza de que sempre haverá, não importa a circunstância, aquela palavra foragida, rebelde, imprudente, esquiva, complicada ou simples, óbvia ou nem tanto, inconstante, que fugirá ou se perderá no caos inconstante de minha mente.

quarta-feira, 23 de março de 2016

#SeLigaNoRecado Os olhos do corvo

            Olá queridos leitores!
            Este post inaugurará o quadro de recomendações do blog que apelidei carinhosamente de #SeLigaNoRecado, então, se liga nas recomendações da titia Blame!



Capa de Os olhos do corvo

            Os olhos do corvo é uma fanfiction (por enquanto) original publicada no site Nyah! Fanfiction, escrita pela linda e fofa Luiza Mór (que escreve sob o pseudônimo de Holly Hobbie).
            A fanfic tem apenas cinco capítulos, mas já atrai muitos leitores e fãs (euzinha inclusa, obviamente), com sua mitologia rica, história envolvente e intrigante, além de personagens interessantíssimos (mesmo que conheçamos ainda muito pouco deles).


"Era ela o espírito que em sonhos o assombrava, com olhos
funestos e uma triste melodia da qual as palavras ele esquecia    
pela manhã."   
Trecho de Os olhos do corvo    

             Trata-se de uma fantasia envolvendo piratas, sereias e ninfas, ambientada em um continente fictício. Conta a história de Ermengard, uma mulher que foi traída por seu amado - um capitão de um navio - sendo jogada ao mar devido a superstições. Ela é salva pela ninfa Feontia, que a transforma em uma sereia, concebendo à moça sua desejada vingança.
            A escrita de Holly é suave e sedutora, envolvendo o leitor logo de início. O narrador é onisciente e intercala sua onisciência entre os personagens. Apesar de estar no começo, destaco aqui alguns personagens como a protagonista Ermengard, a ninfa Feontia e o mocinho Gehart. Apresenta um ótimo enredo, além de uma mitologia concisa e rica, onde há material suficiente para explorar.
            Os olhos do corvo é uma fanfiction incrível, emersiva e de muito potencial. Para aqueles que não tem medo nem preconceito em se aventurar no mundo das fanfictions, essa é uma das histórias que surpreende e vale à pena a leitura, deixando a certeza de que deveria ser publicada.
            Então é isso leitores, deixarei o link da fanfic para vocês conferirem, e conte aí nos comentários se vocês têm o costume de ler fanfictions; se sim, quais vocês acompanham e quais são suas favoritas? E se você for autorx de alguma fanfic, pode mandar o link que leio com o maior prazer! Se eu gostar, de repente eu a recomende por aqui também ;)
            
            Abração leitores e até a próxima! o/



* Confiram aqui Os olhos do corvo
            
         

terça-feira, 8 de março de 2016

Resenha: Os instrumentos mortais e As peças infernais

 
Arte de Os Instrumentos Mortais por Cassandra Jean

Arte de As Peças Infernais por Cassandra Jean



Os instrumentos mortais (The mortal instruments, em inglês) e As peças infernais (The infernal devices) consistem em uma saga e trilogia literárias de YA (Young Adult, em sua tradução literal, “jovem adulto”, que seria a literatura voltada a um público alvo adolescente e jovem, entre seus 14 e 21 anos) de fantasia, escrita pela autora norte-americana Cassandra Clare, publicadas entre 2007 e 2014 nos EUA, porém vindo ao Brasil somente em 2010, (com a trilogia As peças infernais sendo publicada intercaladamente à saga Os Instrumentos Mortais).



Os instrumentos mortais


            

            Os Instrumentos Mortais consiste em uma saga de seis livros (Cidade dos Ossos, Cidade das Cinzas, Cidade de Vidro, Cidade dos anjos caídos, Cidade das almas perdidas e Cidade do fogo celestial), dividida em duas trilogias, com a primeira mantendo o foco narrativo e de enredo mais centrados na protagonista Clary Fray, enquanto a segunda foca-se mais em Simon Lewis, melhor amigo de Clary. Considero a primeira trilogia melhor do que a segunda, pois na segunda a autora acaba escorregando no ritmo, o que, consequentemente, acaba comprometendo o enredo e personagens; porém ela consegue se recuperar, dando uma conclusão bem satisfatória à saga.
Clary Fray por Cassandra Jean
            A história se passa em Nova York nos tempos “atuais” (especificamente, na época em que o livro foi lançado nos EUA, ou seja, 2007), começando quando Clary, uma garota aparentemente normal prestes a completar seus 16 anos, presencia um assassinato em uma boate cometido por três adolescentes que, estranhamente, só ela é capaz de enxergar. A partir daí, Clary se verá em uma difícil situação, onde descobre não ser tão comum quanto pensava e que o mundo em que ela acreditava viver é, na verdade, lotado de seres e criaturas da ficção que a maioria dos humanos comuns não é capaz de enxergar. Com sua mãe desaparecida e demônios tomando conta de sua casa, ela se vê forçada a juntar-se a Jace Wayland, um habilidoso Caçador de sombras (nome dado aos guerreiros Nephilim, que tem sangue de anjo nas veias e como função de vida matar demônios, a fim de tornar o mundo um lugar seguro para os humanos viverem), e seus amigos, os irmãos Alec e Isabelle Lightwood, para descobrir o paradeiro de sua mãe, o que e quem ela é, e o que sua mãe escondeu dela e por quê.
                                               Jace Wayland por Cassandra Jean
                        A narrativa de todos os livros da saga é em terceira pessoa, contendo um narrador onisciente que reveza seu foco narrativo de um personagem a outro, fixando sua onisciência e visão sobre a personagem escolhida da vez. Com isso, a autora constrói uma narrativa que deixa a impressão de ser um quebra-cabeça sendo montado, ainda que a linguagem seja simples, onde temos uma leitura rápida e fácil, sendo o comum do gênero. O universo apresenta uma mitologia rica e bem explorada, misturando anjos, demônios, vampiros, fadas, feiticeiros e lobisomens em uma salada crível e agradável. A ambientação é boa e combina com a proposta, sendo urbana e gótica devido aos lugares que os Caçadores de sombras frequentam e/ou vivem. O enredo é simples, porém bem trabalhado. Apresenta certos clichês e conveniências da narrativa do gênero, mas ainda diverte e emociona. Os personagens são bem construídos e carismáticos, ainda que alguns, de início, pareçam estereotipados. A evolução deles também é relativamente boa, mesmo que alguns oscilem um pouco em sua trajetória em consequência da decaída de ritmo da segunda trilogia, sendo esse um dos pontos mais fracos da saga. A escrita de Cassandra, por vezes, pode ser um pouco enjoativa, devido à repetição excessiva de descrição de características físicas de personagens, das quais ela já nos informou anteriormente, pois muitas vezes, essa repetição não acrescenta à narrativa, assim como ela pode se estender em cenas que também não acrescentam muito à história (essas características se repetem em As peças infernais).

O casal Alec e Magnus - Malec - por Cassandra Jean

Os dois principais vilões são um elemento a se destacar, sendo personagens fortes, carismáticos e cativantes, que mantêm o sentimento iminente de perigo, causando emoções controversas no leitor. Outro elemento a se destacar é a diversidade. Tanto se fala da importância da representatividade em todos os âmbitos, do político ao cultural, e parece que Cassie Clare tem noção disso e da sua responsabilidade como porta voz. Tanto em Os instrumentos mortais quanto em As peças infernais, encontramos mulheres, negros e personagens LGBT bem pensados e construídos, não estereotipados. Inclusive, gosto e admiro o modo como a autora aborda certos temas, como o da homossexualidade; percebe-se uma leveza e naturalidade (como deve ser) ao abordar esses assuntos. E para adolescentes que fazem parte dessas minorias, se verem representados em uma obra de grande popularidade como essa é de extrema importância.
A autora abusa da cultura pop e nerd, utilizando desde Star Wars ao jogo de videogame Halo para construir uma linguagem leve e divertida que se aproxime dos jovens. O humor da saga, de um modo geral, é muito bem executado, sendo introduzido nos momentos certos, além de ser lotado de sarcasmo e referências.
Os Instrumentos Mortais é uma saga que fala, principalmente, de descoberta, adaptação e busca da identidade, temas esses que perduram com grande força durante o período da adolescência. E claro, em conjunto, também traz questões como amor, amizade, certo e errado, bem X mal, com uma dose prazerosa de aventura e fantasia no pacote. Não é uma saga perfeita, mas entretém, diverte, emociona, representa e dialoga com jovens e adolescentes – principalmente - com maestria.


            As peças infernais



As peças infernais, por sua vez, se passa na Inglaterra vitoriana do século XIX. Funciona tanto como uma prequel de Os instrumentos mortais, sendo assim um bom complemento para a saga, assim como funciona perfeitamente como uma trilogia independente, ou seja: não é necessária a leitura de uma e de outra porque funcionam separadas, porém ambas se complementam, além de não haver uma ordem para lê-las; apesar de que, se alguém que estivesse interessadx em ler ambas viesse me perguntar, eu indicaria a leitura na ordem de lançamento*.
Tessa Gray por Cassandra Jean
Sendo assim, somos apresentados à protagonista Tessa Gray, uma adolescente órfã que se muda de Nova York para Londres a fim de encontrar e viver com seu irmão, mas logo de cara, se vê enganada, tornando-se refém de duas irmãs misteriosas e cruéis (chamadas de As irmãs sombrias), que a deixam presa, a maltratam e ensinam Tessa a usar seu estranho poder de se transformar em outra pessoa, do qual nem ela mesma sabia que tinha, a fim de casar-se com um homem a quem ela sequer conhece. Passado algum tempo vivendo naquele cenário desesperador e angustiante, Tessa é resgatada por um Caçador de sombras de nome Will Herondale, que a leva em segurança para o Instituto da cidade onde ela passa a viver sob os cuidados dos Caçadores de sombras. Lá ela conhece Jem Carstairs, Charlotte, Henry, Sophie e Jessamine, embarcando em uma jornada de descoberta de si mesma, do amor, da amizade e da confiança.
Will Herondale por Cassandra Jean
Assim como em Os instrumentos mortais, a narrativa segue o esquema do narrador onisciente focado em certo personagem a cada momento. A visão que mais prevalecerá durante a trilogia será a de Tessa, seguida de Will. A linguagem aqui também é simples e a leitura flui como em um piscar de olhos. Como se passa no mesmo universo de Os instrumentos mortais, não há muito o que ficar repetindo quanto às questões do universo e da mitologia, a não ser o ponto de que As peças infernais tem um pé no steampunk (muitos consideram a trilogia uma obra do gênero, já que temos uma Inglaterra vitoriana e um vilão inventor de autômatos, porém, pessoalmente, não a considero assim, pois o universo fantasioso de Shadowhunters, já concretizado na saga Os instrumentos mortais é que prevalece, dando o tom mais totalizador do ambiente dos livros). Inclusive, a ambientação aqui também é muito boa e crível, casando muito bem com a proposta. A pegada gótica não foi deixada de lado, claro, e a Londres vitoriana está muito bem descrita.
Jem Carstairs por Cassandra Jean
A trama é algo controverso e provavelmente um dos pontos mais fracos de As peças infernais. É quase como se ela se dividisse em dois polos, que classifico como: a vida no Instituto e a trama do vilão. A que o leitor ficará realmente interessado, àquela a qual ele realmente se importará, será a trama da vida no Instituto. A do vilão, que dá o ar steampunk da trilogia, deixa a impressão de que ela funciona mais como um anexo (ou até mesmo uma desculpa) para que se desenrole o envolvimento entre os personagens e seus dramas. Inclusive, ao contrário de Instrumentos mortais, que apresenta dois vilões principais espetaculares, aqui o vilão é, definitivamente, o ponto mais fraco da trilogia, seguido por sua trama também fraca e genérica movida à vingança. O leitor permanece indiferente a ele. Nenhuma grande inquietação, iminência de perigo ou perda provém da figura dele, em si. Aqui também encontraremos clichês do YA (porém alguns deles são trabalhados tão bem que não gera incômodo algum, muito pelo contrário, mas já chego lá) e suas conveniências. Os personagens, em sua maioria, são muito bem construídos, carismáticos, convincentes e o leitor se apega rapidamente a eles. O desenvolvimento deles também é muito bom e aqui não há qualquer oscilação, como em Os instrumentos mortais, pois o ritmo da narrativa permanece crescente e para ao atingir seu ápice.


                                                                                                     By Cassandra Jean

O ponto mais forte da trilogia é, sem dúvida, a relação entre os personagens. No que eu chamo de “a trama do Instituto”, os personagens desenvolvem relacionamentos complexos, complicados, sensíveis, de profundo amor, companheirismo, amizade, honra e sacrifício. O leitor se importa com cada um deles, querendo vê-los bem, realizados e felizes, mesmo sabendo que isso não é completamente possível. O triângulo amoroso (lembra do que eu disse no parágrafo anterior sobre os clichês de YA?) formado por Tessa, Jem e Will é um dos relacionamentos mais bem construídos, desenvolvidos, complicados e emocionalmente dolorosos e sofridos que eu já li dentro do gênero. O aparente clichê da premissa do triângulo amoroso acaba se revelando a melhor coisa da trilogia. O leitor se vê completamente inerte nesses personagens e na relação de extremo amor que eles constroem entre si. Lemos sem parar na fissura de saber o que irá acontecer com e entre esses três. E o desfecho é doloroso, mas de um modo estranho, o mais “feliz” que a autora pôde dar a essa história. As peças infernais, nesse sentido, se mostra uma caminhada emocional abaladora, mostrando que não há limites para o amor e suas várias formas. É bom destacar também a relação de amizade, companheirismo e amor entre Jem e Will, o fator que mais me emocionou na trilogia. É uma relação belíssima, descrita com muita sensibilidade e que o leitor se apega e sofre com e por esses personagens.
Tessa e Will por Cassandra Jean
É interessante perceber que aqui, as referências pop, devido à época, mudam completamente. Se em Os instrumentos mortais temos Star Wars e Halo, aqui temos desde Charles Dickens à Jane Austen. Inclusive, temos várias referências a obras clássicas da literatura e grandes autores, uma vez também que Tessa e Will são, por si só, notáveis amantes da leitura. Devido à carga dramática das relações entre os personagens, o humor aqui está menos presente, porém ele ainda existe, de forma mais sutil, continuando ótimo, pontual, referencial e sarcástico.
É de grande importância destacar também nessa trilogia o modo como a autora abordou o machismo da época, tanto internalizado nas personagens, quanto o modo que afeta a vida e o cotidiano delas. Tessa carrega uma grande carga de regras machistas impostas a ela por sua criação, que logo entra em colapso a partir do momento em que ela começa a viver entre os Caçadores de sombras, onde as regras e modo de vida eram um pouco mais igualitários para as mulheres. O personagem mais execrável, que realmente te desperta ódio e nojo, é o misógino Cônsul Wayland, que colocou Charlotte no comando do Instituto de Londres apenas porque esperava ela ser submissa à Clave e suas ordens pessoais, mas ao perceber a grande líder de iniciativa e atitude que ela era, logo quis fazer de tudo para retirá-la do posto.
                   Tessa e Jem por Cassandra Jean
Por fim, As peças infernais é uma ótima trilogia, que fala especialmente do amor e suas infinitas formas. Ela é feita para te tocar e emocionar. Há aventuras, há também a descoberta e procura à identidade, mas esses ficam em segundo plano aqui. E de qualquer maneira, vale à pena a leitura. A escrita da Cassie Clare pode ser enjoativa e, por vezes, um tanto arrastada, mas ainda proporciona uma leitura rápida e prazerosa.
Comparada à saga Os instrumentos mortais, As peças infernais, por ser mais sucinta, acaba sendo mais “redonda” e compacta. Os instrumentos mortais escorrega bastante no ritmo, especialmente em seu quarto livro (que eu prefiro ver como primeiro livro da segunda trilogia), mas se recupera depois. Talvez por isso muitos gostem mais e/ou prefiram essa trilogia à saga, tanto por ser mais compacta quanto por ser mais “redonda”. Eu, particularmente, gosto de ambas. Ambas têm seus defeitos e qualidades, não são perfeitas, mas ainda são ricas, divertidas e emocionantes, valendo a leitura.







*Ordem de lançamento: 1º trilogia de TMI** – Cidade dos ossos, Cidade das cinzas, Cidade de vidro; 1º livro da trilogia TID*** – Anjo mecânico; 1º livro da 2º trilogia de TMI ou 4º livro de TMI – Cidade dos anjos caídos; 2º livro de TID – Príncipe mecânico; 2º livro da 2º trilogia de TMI ou 5º livro de TMI – Cidade das almas perdidas; 3º livro de TID – Princesa Mecânica; 3º livro da 2º trilogia de TMI ou 6º livro de TMI – Cidade do fogo celestial.
**TMI – The Mortal Instruments
***TID – The Infernal Devices







Poema: Não bata!

            Hoje, no dia internacional da mulher, as mulheres mandam um recado forte contra o patriarcado e o machismo nas redes sociais. A hashtag #NaoQueroFlores e muitas outras viralizaram e deixaram claro seu protesto: queremos respeito, queremos ser tratadas como seres-humanos, queremos ser livres, queremos o fim da violência e da opressão. Então, pensando na nossa luta e me inspirando numa realidade de violência, infelizmente, comum para nós mulheres, fiz um poema.
            Espero que gostem e apreciem (ou não...).

Não bata!


Bate na porta
           
Bate! Bate!
           
Bate na mesa
           
Bate! Bate!
           
Bate na parede
           
Bate! Bate!
           
Bate no chão

Bate! Bate!


O meu coração

Bate! Bate!

A pulsação

Bate! Bate!

O ferimento

Arde! Arde!


Na porta

Não bate. Não bate.

Na mesa

Não bate. Não bate.

Na parede

Não bate. Não bate.

No chão

Não bate. Não bate.


Tentar respirar

Arde! Arde!

Tentar levantar

Bate! Bate!


Garrafa na mão

Bate! Bate!

Sangue no chão

Bate! Bate!

Limpar a visão

Bate! Bate!

Levanta do chão

Bate! Bate!


A respiração

Bate... Bate...

A pulsação

Bate... Bate...

O coração...


Não bate... Não bate.

                                                               *


Nesse dia internacional da mulher #NaoQueroFlores, quero ser livre do machismo, pelo menos por um dia (utópico não?).